segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Eu tenho um amor

Tenho um amor que se inventa nas frestas,
nos códigos secretos, 
no breve silêncio do quarto,
quando o pequeno  dorme 
e o mundo descansa de nós.

Tua mãe pergunta: “Por que não descansas?  é tarde
Da porta, ela vê a tela lumiar tua boca mordida
e não imagina que seus olhos ressecam e vidram
em visões temporárias que assanham borboletas
no seu corpo irrigado, quente e úmido

Meu amor se esgueira em contornos ralos,
feito sombra macia, sem nome, sem toque,
E amores, como esse, que não se deixam contar,
preferem os becos das palavras ausentes.
Habitam o escuro, o vão,
a madrugada que avança enquanto tudo dorme

"Sua música mudou de cor?",
Diz quem vê que um olhar vago esconde desejos trançados,
E não imagina que, sob a mesa,
Mãos simulam o corpo distante e escorrem em essência,
No silêncio do gesto, consumindo um amor que não cabe na sala.

Meu amor foi achado no avesso das coisas,
em uma ilha do destino torto, tocando no escuro.
Desde lá, sobrevive nas horas embaraçadas,
E não pretende ir mais fundo, só nas cenas nudas,
pelas quais vale o desalinho da espera.




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Devir

Não devia doer
Se aquilo cicatrizou
Não devia doer
Fui eu quem optou
Não devia doer
Afinal ninguém errou
Não devia doer
Saber que ela ficou
Não devia doer
Saber que tudo passou



domingo, 4 de outubro de 2015

Olhos Abertos

De olhos fechados eu volto
Penso que é melhor assim
De olhos fechados eu vejo
O quanto foi bom pra mim
De olhos fechados eu penso
Porque tudo foi ao contrário
De olhos abertos é claro
Que nada foi por acaso




segunda-feira, 15 de dezembro de 2014



Ela não era uma inocente vestal. Era o vermelho das unhas que saltava aos olhos. Um semáforo fechado em um dia de calor, uma ameaça purpúrea.
Ela era o sal que acrescentava ao prato, o metal dos anéis dos seus braços e o reflexo ofuscante do sol que vinha do ferro da sua roupa.
Era o gesto escancarado que acompanhava o gargalhar e o sarro. Ela era Lilith, não era Eva.
Ela era fogo e azeite. Um rasgo de unhas vermelhas. E o vermelho é a cor mais forte. É Fogo.

E Neruda diz em verso que o fogo tem metade de frio. E ele quis sentir esse frio. 
Mas o frio dela era gelo. O gelo dos metal dos anéis dos seus braços e do ferro da sua roupa. Era o vento forte que vem da janela e bate na cara na volta pra casa com o olhar perdido e frio. Era o arrepio da mordida na orelha que ouvia em sussurros palavras. 

E a palavra é uma asa do silêncio. O silêncio é a alma. E eles deitaram em silêncio na colina, e cada gota que caiu, caiu em silêncio. E escorreram as do céus com as salgadas.
E em silêncio eles ficaram quando soou a canção sob a ponte. E quem passou no passeio não ouviu ele dizer que ama e nem viu a razão e a paixão despidos em meia luz. E enquanto subiam, um ponderava consequências e o outro tornava tudo inesquecível. 

E não se esquece a subida da montanha, porque foi  de lá que eles viram o que o que não se vê. Foi lá que eles fizeram o que não se faz.
Mas quando não se tem mais aonde subir, eles sabem que é hora de voltar ao mundo. E que não há nada a fazer além de descer. 

Não antes de olhar o que passou.
Como se tudo tivesse acontecido.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A vida nos chamou

Eu queria poder
Dormir com você
Quando eu bem entender
Sem quê, nem pra quê


Não deixar mais vazia
Tua cama macia
Onde amor fazia
Quando amanhecia

Mas veja, amor
O tempo terminou
Ouça, por favor
A vida nos chamou

Eu queria poder
Não deixar mais vazia
Mas veja, amor
Sem quê, nem pra quê
Quando amanhecia
A vida nos chamou

domingo, 9 de novembro de 2014

Pra te iluminar

Esse clarão que banha a pele de quem se permite iluminar...
Clara, não fazem os meus olhos cansarem 
Mas vidrados e perplexos. 
Eu poderia morrer olhando você, lua. 
Nua. 
Eu, homem, não sei se voltarei a casa tua. 
Mas sei que teu quarto crescente logo irá minguar.



http://shayfeitosa.files.wordpress.com/2008/11/lua.jpg

Todos dizem que és nova, lua, e que podes se virar.
Mas estarei pra sempre em pé daqui da rua
Pra te iluminar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Som de novela

E eu aqui feito gato vendo novela
Quando passa o som de Chico Buarque
E mesmo sabendo que agora é tarde
Não houve como não lembrar dela

Eu queria saber deixar esvair
Cada momento pra sempre marcado
Ando pensando com Chico, calado:
Me diz, menina, como ei de partir