segunda-feira, 15 de dezembro de 2014



Ela não era uma inocente vestal. Era o vermelho das unhas que saltava aos olhos. Um semáforo fechado em um dia de calor, uma ameaça purpúrea.
Ela era o sal que acrescentava ao prato, o metal dos anéis dos seus braços e o reflexo ofuscante do sol que vinha do ferro da sua roupa.
Era o gesto escancarado que acompanhava o gargalhar e o sarro. Ela era Lilith, não era Eva.
Ela era fogo e azeite. Um rasgo de unhas vermelhas. E o vermelho é a cor mais forte. É Fogo.

E Neruda diz em verso que o fogo tem metade de frio. E ele quis sentir esse frio. 
Mas o frio dela era gelo. O gelo dos metal dos anéis dos seus braços e do ferro da sua roupa. Era o vento forte que vem da janela e bate na cara na volta pra casa com o olhar perdido e frio. Era o arrepio da mordida na orelha que ouvia em sussurros palavras. 

E a palavra é uma asa do silêncio. O silêncio é a alma. E eles deitaram em silêncio na colina, e cada gota que caiu, caiu em silêncio. E escorreram as do céus com as salgadas.
E em silêncio eles ficaram quando soou a canção sob a ponte. E quem passou no passeio não ouviu ele dizer que ama e nem viu a razão e a paixão despidos em meia luz. E enquanto subiam, um ponderava consequências e o outro tornava tudo inesquecível. 

E não se esquece a subida da montanha, porque foi  de lá que eles viram o que o que não se vê. Foi lá que eles fizeram o que não se faz.
Mas quando não se tem mais aonde subir, eles sabem que é hora de voltar ao mundo. E que não há nada a fazer além de descer. 

Não antes de olhar o que passou.
Como se tudo tivesse acontecido.